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Vida a Dois

           Já era tarde da noite e um tanto cansado voltava de mais uma viagem. Enquanto o metrô atravessava túneis e espaços urbanos, comecei a observar os casais. Logo a minha frente um casal ainda jovem trocava afagos contínuos acalorados por longos beijos e abraços. São jovens namorados, logo concluí. Um pouco mais à direita contemplei outro casal aparentando certa maturidade. Embora sentados lado a lado, estavam absortos e silentes. Pouco se tocavam e apenas vez por outra sussurravam algumas palavras. São casados, logo conclui. Ambos desceram na mesma estação e enquanto o casal mais jovem caminhava abraçado, o outro prosseguiu mantendo certa distância.


          Ao analisar a incoerência daquele momento foi-me impossível não lembrar a frase de Simone de Beauvoir. Teria ela mesmo razão quando afirmou: “A grande tragédia do casamento é que ele mata as demonstrações de amor.” A frieza em expressar afeto e a ausência de toque parecem ser características de relacionamentos antigos. Já a proximidade e os afagos sempre marcam os amores que estão começando. O paradoxo é que justamente aquilo que deveria levar a um aumento do contato e da intimidade acaba por extingui-los. O tempo e a convivência que deveriam unir acabam muitas vezes por afastar e repelir. Por que grande parte dos relacionamentos dispensa o toque no decorrer dos anos? Por que muitos casais permitem que certa frieza e morbidez afetiva abrandem o desejo de se manter fisicamente unidos? Essas questões passaram a me intrigar.



Uma amarga realidade



Segundo o psiquiatra inglês Donald Winnicot, muitos conflitos emocionais da vida adulta estariam relacionados à falta de abraços e toques nos primeiros anos da infância. Inúmeros estudos sugerem que a disponibilidade de contato físico pode trazer benefícios à saúde física e mental, como o fortalecimento do sistema imunológico. Por sua vez, a ausência estaria relacionada a comportamentos patológicos como insegurança, pânico e até depressão.

Durante algum tempo atendendo casais que passavam por severas crises emocionais, pude constatar que o processo iniciava com uma ausência sutil e contínua de toques e afagos, até culminar com a decisão de separação. A ausência de toque estava sempre vinculada à falta de amor e cuidado pelo outro. O mal de muitos relacionamentos é permitir que a insuficiência de interesse e respeito vá produzindo certo distanciamento que se caracteriza por uma total ausência do desejo espontâneo de tocar-se. Muitos rejeitam o toque e a intimidade e constroem dentro de si bloqueios psicológicos que só se permitem tocar ou serem tocados na hora do sexo. Usam a frieza e o afastamento como um mecanismo de defesa para desviar-se da intimidade.

Uma estudante de psicologia passou a observar o número de toques fortuitos que um casal comum trocava por dia e ficou alarmada ao constatar a triste realidade. Na maioria dos casos, a freqüência era de apenas um toque por dia enquanto outros o aboliram totalmente em sua convivência diária. Ela também observou que demonstrações de afeto como abraçar-se, dar as mãos ou apoiar a cabeça no ombro do outro eram comportamentos mais característicos daqueles que desfrutavam de boa qualidade de vida conjugal.

No relacionamento familiar entre pais e filhos o toque está profundamente relacionado ao desenvolvimento do afeto e aceitação. Em outras palavras, aprendemos a amar quando também somos amados. Grande parte do afastamento entre pais e filhos se estabelece no período da adolescência. Nessa fase muitos pais privados pelo temor da intimidade ou pela ameaça do incesto acabam pensando que não devem tocar seus filhos. Cria-se então uma ruptura e indiferença que podem perdurar por anos, justamente num momento em que os filhos mais necessitam do fortalecimento das noções de amor e aceitação. Foi talvez por esse motivo que John Bowby, psicólogo inglês, afirmou que a ausência de toque pode também resultar na incapacidade de se manter vínculos afetivos com os outros.

Que fatores agiriam como desencadeantes da frieza e do afastamento? Que caminhos produzem a ruptura? Na minha experiência profissional pude constatar alguns deles:



Orgulho

Muitos conflitos do relacionamento produzem marcas e ferimentos na mente e no coração. Quando ofendida, é natural que uma das partes se ressinta. Nesse aspecto pode ser perigoso estar certo, pois é geralmente a parte que se julga certa, a mais resistente ao perdão e a reaproximação. O orgulho sempre produz afastamento e nunca a união. O orgulhoso pode permanecer impassível, incapaz de retratar-se, enquanto o coração está carente de afeto e compreensão.



Ressentimento

O orgulho e a mágoa quando cultivados e alimentados produzem o ressentimento que é uma resistência em perdoar e esquecer. Como podemos amar e tocar ternamente alguém que nos ofende ou nos agride com palavras ou até fisicamente? Como tocar sem asco ou receio a pessoa que tantas vezes nos magoa ou nos rejeita com sua indiferença? Certas atitudes e comportamentos podem instalar a mágoa no coração tornando impossível amar com afetuosidade. O ressentimento pode extinguir o desejo de aproximação e de toque e caso não seja superado pode acabar com o mais promissor relacionamento.




Ausência de comunicação.

É praticamente impossível manter a atração e o desejo de tocar quando não existe um processo de comunicação aberta e sincera no relacionamento. Isto significa que sem a capacidade de criar espaços para expressão dos sentimentos ou de prover canais para a descarga emocional o desejo e o interesse pelo toque podem permanecer bloqueados. Sem a capacidade de comunicar alegrias, tristezas e temores, a própria intimidade perde a atratividade se transformando num processo frio e mecânico.



Vontade e tempo.

A maior dádiva que podemos oferecer em um relacionamento é dar- nos a nós mesmos e isto requer entrega vontade. Todo o processo de amar também envolve tempo. Na roda viva e agitada em que vivemos é mais fácil deixar que os compromissos e as obrigações nos privem do aconchego. Por vezes são as preocupações com o trabalho, com os filhos e com as dívidas. Tudo isto pode gradativamente nos envolver a ponto de não encontramos tempo, espaço ou interesse pela aproximação ou pelo toque.

Muitos casais deixam de tocar-se simplesmente porque elegem outras preferências, e assim, perdem o interesse e a vontade de fazê-lo. Priorizam outras necessidades em detrimento do relacionamento. E o “namoro” fica delegado a um segundo plano. São as muitas preocupações e a rotina da convivência que acabam por aniquilar o interesse e a vontade de dedicar amor e cuidado um ao outro.



Insatisfação.

Muitos rejeitam o toque porque também rejeitam consciente ou inconscientemente o parceiro. Questões de caráter pessoal, de higiene ou de temperamento podem deflagrar em afastamento. A insatisfação sexual, principalmente quando o outro é visto como um objeto, quando sexo é um processo frio e mecânico não prazeroso ou quando há uma rejeição física com algum aspecto do parceiro podem também produzir afastamento e desinteresse pelo toque na vida diária.



COLOQUE DENTRO DE UMA CAIXA – COMO SE FOSSE UM BOX



Caminhos para a Restauração


Nos últimos tempos alguns pesquisadores das Universidades de Miami, Duke e Harvard apontaram para o toque como agente curativo, pois, pode produzir alterações neuroquímicas no organismo. O fato é que todos os órgãos do corpo (inclusive a pele) possuem terminações nervosas que estão ligadas ao cérebro. Baseado nessas afirmações é possível propor algumas propriedades do uso do toque como um poderoso restaurador de relacionamentos:




1. Tome a iniciativa:

Quando decidimos renovar o toque no relacionamento o mais difícil é começar. Imaginamos sempre que essa função pertença ao outro, mas a hesitação e o receio em iniciar o processo podem fazer com que o afastamento se solidifique. Precisamos começar mesmo sob o risco de sermos rejeitados ou mal compreendidos no início. Se o toque é um remédio e nós nos recusamos a usá-lo podemos refletir orgulho e até crueldade em não iniciar o seu uso.



2. Dialogue e resolva os conflitos:

As amarguras e a ira não devem permanecer ocultas, devem ser expressas com inteligência emocional. Remoer mágoas e ressentimentos não cura um relacionamento doentio. Conflitos podem ser oportunidades para o crescimento e o amadurecimento. Precisamos estar abertos ao diálogo e à mudança, quando necessário. Precisamos abrir as vias para a comunicação íntima e sincera a fim de criar condições para o aconchego e toques ternos e sinceros.



3. Desvincule toque de sexo


Para muitos o toque está sempre ligado a uma conotação sexual e por isso só se permitem ser tocados no momento de intimidade. Se quisermos, porém, despertar o desejo e o interesse pela aproximação precisa-se separar o toque dos apelos sexuais. Estudos revelam que são principalmente o toque e a carícia realizados em momentos considerados neutros, que exercem mais poder sobre a qualidade de vida sentimental.

Há pouco tempo conversei com um terapeuta sexual que cuidou de muitos casais com impotência sexual, por meio do resgate do uso do toque. Ele aconselhava ao casal permanecer por cerca de um mês apenas namorando e se tocando, porém, sem penetração. Muitos casais por meio desse processo nas preliminares viram o desejo e o interesse pela intimidade sexual retornar ao casamento.



4. Dedique tempo

Para que se inicie o processo do toque é necessário tempo e vontade. Mesmo o toque casual, inicialmente, requer certa dose de empenho. Em muitos casos é necessário que se decida voltar aos primeiros anos da paixão reservando um momento, um lugar ou um horário para o toque e o aconchego. O amor e o desejo nem sempre são processos que ocorrem de maneira natural. Algumas vezes requer o uso da vontade e, acima de tudo, muita disposição para realizá-los.



5. Perdoe

Não podemos despertar o interesse pelo toque e a aproximação enquanto o coração permanece crivado pela mágoa e pelo ressentimento. Só o perdão puro e sincero abre caminhos para a verdadeira entrega. Decidir perdoar e esquecer pode ser uma das mais difíceis decisões a serem tomadas, por vezes até um ato heróico, contudo, é um processo vital para a restauração de qualquer relacionamento.

O processo de amar e conviver nunca serão uma experiência lógica e óbvia, porém, precisamos sempre investir em seu aperfeiçoamento. Desejo concluir, com um trecho da famosa poesia de Phillis K. Davis, Por favor, me toque:

Se sou o seu cônjuge, por favor, me toque.

Talvez você pense que sua paixão basta,

Mas só os seus braços detêm meus temores.

Preciso do seu toque terno e confortador

Para me lembrar de que eu sou amado apenas por que...

eu sou.



Eronildes Conceição Palmeira de Nicola

Pedagogo e Psicólogo
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